Você já se pegou estudando inglês e tentando, a todo custo, eliminar qualquer vestígio de brasilidade da sua fala? Muitos estudantes buscam aquele sotaque perfeito no inglês, como se o sucesso na fluência dependesse de soar exatamente igual a um nova-iorquino ou a um londrino. Certamente, a pronúncia é fundamental para a comunicação, mas será que a ciência concorda com essa cobrança excessiva?
Hoje, nós vamos desmistificar essa busca. Além disso, você vai aprender um detalhe fascinante de fonologia sobre os sons de “S” e “Z” que provavelmente nunca te ensinaram nos cursos tradicionais.
Com o propósito de te ajudar a entender essa dinâmica, trouxemos um vídeo incrível da Profa. Dra. Carina Fragozo. Ela explica como a nossa língua materna molda a nossa fala e revela os dados surpreendentes da sua própria tese de doutorado.
O que é a assimilação de vozeamento?
Antes de tudo, precisamos entender como os sons funcionam na nossa boca. Você já reparou que alguns sons fazem a sua garganta vibrar e outros não? Por exemplo, se você colocar a mão no pescoço e produzir o som ssssss, não sentirá vibração; esse é um som desvozeado. Por outro lado, ao fazer o som zzzzzz, as suas pregas vocais vão vibrar; este é um som vozeado.
A assimilação de vozeamento acontece porque o nosso cérebro, buscando conforto na fala, contamina um som com a característica do som vizinho. Desse modo, as línguas se organizam de formas diferentes para facilitar a transição entre as palavras.
A regra no Português: Olhando para a frente
No português brasileiro, o som da letra “S” adapta-se ao que vem depois dele. Dessa forma, chamamos esse processo de assimilação regressiva.
- Casas pretas: Como o “P” é um som seco (desvozeado), o “S” continua com som de
/s/. - Casas amarelas: Visto que a vogal “A” é vozeada, o “S” automaticamente ganha som de
/z/se falarmos as palavras emendadas (casaz-amarelas).
Como funciona o plural e o possessivo no Inglês?
Em contrapartida, o inglês funciona de maneira totalmente oposta. O som do “S” no final das palavras (seja no plural, na terceira pessoa ou no caso possessivo) depende puramente do som que veio antes dele. Trata-se de uma assimilação progressiva.
Quando usar o som de /s/ ou /z/?
- Som final de
/s/: Ocorre quando a palavra original termina com um som desvozeado. Por consequência, a palavra books, cujo singular termina com o som de/k/, mantém o som de/s/limpo no final da forma plural. - Som final de
/z/: Ocorre quando a palavra termina com um som vozeado. Desta maneira, a palavra dog termina com o som de/g/, fazendo com que o plural dogs seja pronunciado, na verdade, como dogz.
Surpreendentemente, o estudante brasileiro costuma errar aqui porque tenta aplicar a regra do português. Se dizemos cats around, tendemos a olhar para a vogal seguinte e falar “catz-around”, embora o correto seja manter o som de /s/, já que o som anterior é o /t/.
Para entender melhor como essas dinâmicas funcionam na prática, vale a pena ver a importância da pronúncia e do sotaque no inglês, onde os teachers Rodrigo Honorato e Carina Fragozo debatem em vídeo como diferentes nuances linguísticas influenciam diretamente a sua jornada de aprendizado.
O que a ciência diz sobre o sotaque perfeito?
Durante a sua pesquisa de doutorado, a Carina analisou a fala de 35 brasileiros de diversos níveis de proficiência através de softwares de análise acústica computadorizada. O objetivo era descobrir se os alunos avançados conseguiam dominar perfeitamente essa regra oculta do inglês.
Como resultado, a pesquisa revelou que 0% dos brasileiros adquiriu a regra em nível físico. Isto é, mesmo os falantes proficientes e professores que pareciam ter alcançado o sonhado sotaque perfeito no inglês, no fundo, mantinham traços acústicos da língua portuguesa.
Portanto, a ciência prova que carregar marcas da sua língua nativa é um processo perfeitamente natural da mente humana.
Conclusão: Valorize a sua identidade na fala
Em resumo, buscar uma boa pronúncia e clareza na comunicação é excelente, mas a pira de alcançar um sotaque perfeito no inglês não deve ser uma obsessão. Ter sotaque é o reflexo da sua história e da sua bagagem cultural. O mais importante é ser compreendido e se conectar com o mundo com total confiança!





