Entrevista com Calhandra Pinter: sobre o ensino de inglês para jovens e adultos (EJA)

Escrito por Carina Fragozo
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Hoje compartilho com você a PRIMEIRA ENTREVISTA DO ANO! Esta seção fez muito sucesso em 2013 e, portanto, você continuará lendo uma entrevista por mês aqui no blog. A entrevistada da vez é Calhandra Pinter, licenciada e especialista em Língua Inglesa e mestre em Linguística pela PUC-RS (2010). Calhandra iniciou sua trajetória como professora em cursos de idiomas e logo depois passou a lecionar em escolas particulares, atuando tanto no ensino fundamental como no médio.  Em julho do ano passado, ingressou no ensino público municipal de Porto Alegre, trabalhando, então, com alunos de EJA (Educação de Jovens e Adultos). Logo apaixonou-se pela área e, nesta entrevista, conta sobre sua experiência como teacher neste contexto.
EiB: Você começou a lecionar no EJA no ano passado e, de cara, identificou-se com a proposta e com os alunos. O que fez você se encantar com essa nova etapa?

CP: Acredito que tenha sido um conjunto de fatores. Primeiramente, tudo foi muito novo para mim, tal como os alunos que vinham de um contexto social bem diferente de todos aqueles com os quais eu já tinha trabalhado – já que minha experiência anterior se resumia a cursos de idiomas e escolas particulares que possuem alunos cujos pais têm poder aquisitivo de classe média ou alta. Houve também o fato de trabalhar com diversas idades (alunos de 16 a 64 anos) e diferentes interesses em relação à língua inglesa – enquanto os mais jovens relacionavam palavras e expressões em LI às músicas estrangeiras que eles escutavam, os alunos de maior idade relacionavam a LI com algumas palavras utilizadas no cotidiano, como por exemplo a tecla “redial” do telefone em casa e seu significado. Então, a realidade dos alunos em conjunto com diferentes idades, vivências, objetivos, tudo isso me deu outra perspectiva do que seria a LI no ensino público, do que eu poderia contribuir para estes estudantes, do que eles levariam da LI para a vida deles, do que eles contribuiriam para o meu crescimento profissional e, mais ainda, pessoal. Tive que estudar bastante a EJA, seus objetivos para poder relacionar conteúdo/contexto/uso/comunicação no ensino de LI.

EiB: Quais as maiores vantagens e os maiores desafios de lecionar turmas de EJA?

CP: Dentre as vantagens, estão a maturidade e a disposição dos alunos e o currículo mais flexível. O aluno de EJA geralmente busca uma formação para obter uma ascensão social, já que a maioria dos estudantes já trabalha, porém muitos empregadores estão mais rigorosos quanto à formação de seus subordinados, exigindo no mínimo o ensino fundamental. Já que este mesmo aluno busca essa formação para si, a sua postura dentro de sala já é diferenciada. Este aluno dá maior atenção às aulas, se esforça mais, faz mais perguntas e anotações do que um pré-adolescente ou adolescente estudando os mesmos conteúdos na mesma escola, porém no ensino regular. Dentre os maiores desafios, está o próprio perfil do aluno do EJA. Se ele está ali, naquela determinada turma, é porque ele já passou por algum “fracasso escolar”, por assim dizer. Ele pode ter repetido várias vezes o mesmo ciclo e sua idade não condizer com o ciclo (série/ano) no qual ele se insere. Há também a possibilidade de este aluno ter parado de estudar por ter que trabalhar e não saber o básico para a continuação dos estudos. Enfim, todo aluno do EJA passou por alguma situação que o impediu de continuar no ensino de forma regular, o que acarreta em dificuldades bem particulares de cada um dos alunos. Por outro lado, há uma outra vantagem que mencionei anteriormente que ajuda na superação deste desafio: o currículo mais flexível. Nós possuímos diretrizes com objetivos do ensino de LI, dentre eles a contribuição no desenvolvimento da cidadania e participação social. Como cada professor coloca em prática tais objetivos vai de acordo com a percepção do professor sobre a relação que cada turma possui com a LI, sendo possível planejar uma aula diferente da outra, personalizando determinados conteúdos de acordo com o nível de dificuldade do grupo e o conhecimento prévio dos estudantes.

EiB: Qual o perfil do aluno de inglês no EJA?

CP: O aluno da EJA mantém uma relação ambígua com a LI. Ao mesmo tempo em que admitem a dificuldade que têm no aprendizado da língua – pois já trazem uma dificuldade prévia com sua própria língua materna na leitura e escrita –, eles também reconhecem a importância da LI na atualidade. Logo no início das aulas, muitos dos alunos faziam relações da LI como apenas utilizada nos Estados Unidos devido à maior propagação que este país tem na mídia brasileira. Após algumas aulas interdisciplinares entre LI e Geografia, eles conseguiram perceber não só a abrangência da LI pelo mundo, como também puderam notar a abrangência mundial da própria língua materna e da nossa língua “vizinha” que é o espanhol. 

EiB: Como é o currículo desenvolvido para estes alunos? O conteúdo é o mesmo ensinado no Ensino Médio?

CP: No município de Porto Alegre há apenas duas escolas de EJA no nível de Ensino Médio. Na escola que trabalho, a EMEF Senador Alberto Pasqualini, as turmas de EJA são de ensino fundamental. Então currículo e conteúdo são adaptados a cada nível, sendo eles T4 (equivalente a 4º e 5º anos do EF), T5 (equivalente a 6º e 7º anos do EF) e T6 (equivalente a 8º e 9º anos do EF). 

EiB: Conte-nos sobre como você prepara suas aulas. Mencione seus livros e sites favoritos.
CP: Eu preparo as aulas seguindo os conteúdos de cada ciclo contextualizando com a realidade de cada grupo. Como eu tenho essa necessidade de trazer os conteúdos para a realidade dos alunos, eu tenho sempre que adaptar alguns textos e diálogos de livros que adoro trabalhar – meus preferidos são o Headway da Oxford e o American English in Mind da Cambridge, que possuem textos simples e que normalmente se encaixam com o currículo do EJA nos níveis básicos. As adaptações que utilizo são feitas para aproximar os alunos da língua, como por exemplo, quando estávamos trabalhando com preposições e direções (behind, in front of, turn left, etc), eu fiz um mapa dos principais pontos do próprio bairro da escola e pedi a cada um deles que desse direções aos colegas em LI de como chegar a tal lugar. Quando trabalhamos com rotina, eu elaborei pequenos texto sobre a rotina dos próprios alunos, que horas iam trabalhar, onde pegavam o ônibus, que horas jantavam, etc, de acordo com um questionário que eles tinham respondido na primeira semana de aula, o qual eu tinha entregue a eles para co
nhecê-los melhor. Foi grande a surpresa de eles se “acharem” nos textos! Então, a criação e/ou confecção de material são bem cansativas, demandam trabalho, mas são bastante produtivas também, porque criam uma atmosfera de familiaridade por parte dos estudantes, o que contribui e muito para o aprendizado.
Sempre no início das aulas retomo com os alunos alguns aspectos da aula anterior, fazendo uma conexão com a lição do dia. No meu plano de aula coloco atividades nas quais eles precisam fazer perguntas aos colegas, produzam pequenas frases, consigam fazer suas próprias anotações do quadro. Tento várias estratégias para que a aula se torne significativa para os alunos e também que eles consigam adquirir as informações aprendidas. 


EiB: Você pensa em desenvolver algum projeto relacionado a esse público?

CP: Um dos meus objetivos neste ano é tentar realizar mais aulas em parceria com outras disciplinas, como geografia e história, para enriquecer mais as aulas e trazer uma maior proximidade da LI com os alunos. Acredito que destas pequenas interações que surgem os maiores projetos, pois muitas vezes o professor pensa em um projeto que ele acha superlegal, diferente, inovador, quando na verdade para os alunos, o tal projeto pode parecer sem sentido. Então eu acredito que das pequenas interações em sala, pode-se ter uma ideia de um projeto que realmente pode dar certo, sempre colocando o aluno e o proveito que ele vai tirar deste conhecimento em primeiro lugar. Pessoalmente, eu gostaria de relacionar essa experiência com a EJA em estudos maiores, aprofundar bastante o conhecimento, talvez um tema para um doutorado, mas este seria um plano para mais adiante.


EiB: Deixe uma mensagem para os professores que têm interesse em trabalhar nesta área.

CP: Keep calm and carry on! De início são vários os desafios e a angústia sobre se estamos conseguindo contribuir para o crescimento dos alunos, mas nós acabamos nos apaixonando por tudo que eles nos proporcionam ao vermos sua evolução e a recompensa de que conseguimos fazer a diferença, nem que seja de pouco a pouco. 

EiB: Muito obrigada pela participação, sua entrevista foi muito motivadora. Parabéns pelo trabalho!

CP: Eu que agradeço! Foi um prazer fazer parte deste espaço! Sucesso!!!

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