Entrevista com Marcelo Taniguchi: sobre trabalho e estudo na Austrália

Escrito por Carina Fragozo
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O entrevistado de março é Marcelo Taniguchi, que recentemente voltou de uma experiência de seis meses na Austrália. Após passar um mês em São Diego, Califórnia, Marcelo ficou com “um gostinho de quero mais” e, um ano depois, estava arrumando as malas rumo à Austrália. Nesta entrevista, ele conta tudo sobre seu intercâmbio: sua experiência de trabalho e estudo, o processo para aquisição de visto, a cultura australiana, as gírias e expressões que aprendeu e, além disso, recomenda passeios e pontos turísticos. Devido à experiência positiva, Marcelo já planeja um terceiro destino para 2015: o Canadá. A entrevista ficou muito bacana, enjoy it!

EiB: Por que você escolheu fazer intercâmbio na Austrália?

MT: Decidi em ir pra Austrália muito em função de o clima ser parecido com o do Brasil e porque na Austrália o estudante pode trabalhar e estudar. Outro fator que me fez optar pela Austrália foi porque alguns amigos também decidiram ir pra Sydney na mesma época. E Sydney em particular por ser uma cidade multicultural e com muitas praias =]. 

EiB: É necessário algum visto para visitar o país? Como foi esse processo?

MT: Sim. Tanto para turista quanto para quem vai para estudar é necessário tirar um visto para a entrada no país. Eu fui orientado por uma agência de intercâmbio aqui de São Paulo que tem escritórios na Austrália (o que pesou na escolha), e eles ajudaram no processo de visto. Mas não foi simples, o que dificulta a obtenção do visto australiano é a questão da comprovação financeira que, se não me engano, exigia a comprovação do valor do curso e uma renda mensal sensata para se manter lá. Acredito que é semelhante à obtenção do visto Canadense.

EiB: Quais as diferenças culturais que você sentiu por lá?

MT: Além do idioma, a cultura Australiana é em partes similar à dos ingleses por ser ex-colônia britânica. A primeira diferença que notei foi o sentido das vias: como os ingleses, os motoristas dirigem os carros do lado direito. Logo, as pessoas andam na calçada do lado invertido ao nosso e isso reflete nas escadas rolantes, onde é preciso deixar a direita livre se você for ficar parado. Outra diferença, lá nos banheiros o papel higiênico se joga na privada mesmo [risos].
O churrasco australiano é basicamente linguiça e salsicha para comer com pão, não dá pra considerar aquilo como hot-dog. E tinha churrasqueiras elétricas públicas espalhadas pelos parques pra qualquer pessoa usar.
As pessoas lá se respeitam muito, me senti muito seguro. Era besteira ficar andando olhando pra trás desconfiado, assalto lá era raro. Vira e mexe você podia ver gente usando tablets e notebooks dentro do ônibus na maior naturalidade. Nos supermercados, adorava os caixas self-service, como todo mundo respeita, o sistema funciona. Você mesmo passava suas compras no caixa e pagava pelo que estava levando, sem a necessidade de um atendente. O transporte público funciona muito bem, o metrô é bem espaçoso (de dois andares) e bem confortável e ia pra tudo quanto é canto; Para alguns lugares era melhor pegar as balsas, os Ferry Boats que também funcionam super bem; os ônibus funcionam com base em TimeTables precisos, já que o trânsito que eles consideram pesado é semelhante ao trânsito de sábado aqui em São Paulo. Outro meio de transporte curioso muito utilizado pelas pessoas lá era o patinete, além das bicicletas.

Biscoitos TimTam,
 famosos entre os australianos.

Senti muita falta do típico prato brasileiro arroz e feijão, comia muita comida rápida como macarrão, wrap, sanduíche, salada, omelete. Engraçado que como também é uma cultura bem influenciada por diversas nacionalidades, os próprios australianos não conseguem considerar uma comida típica Australiana. O que eles lembram é Lamington (Bolinho de Chocolate com recheio de coco), Vegemite (Pasta de conservas super salgada) e Pavlova (Torta com merengue, frutas vermelhas e maracujá). Sydney foi abeçoada pela natureza, há praias pertinho do centro, muita área verde e parques espalhados pela cidade e água rodeando a cidade (Harbour). Isso com certeza influenciou no modo de vida relaxado do australiano, muita gente ia almoçar numa sombrinha no parque, ou dar um pulo no mar antes ou depois do trabalho, também tinha bastante gente que praticava algum exercício físico, muita gente se exercitando em parques e correndo pela rua. A TV australiana não é uma das melhores, as novelas são chatas, os noticiários só falam de fatos australianos, muito tempo dedicado pra esporte e os comerciais de tv parecidos com os dos EUA, péssimos. Mas alguns programas eram interessantes, sim. Para acompanhar notícias do restante do mundo era preciso recorrer à internet. Engraçado que em relação à esporte, lá é bem popular o Australian Footballjogado com uma bola de Rugby e permitindo o uso das mãos, achei muito doido. O esporte nacional é dividido entre Rugby e Cricket, bem britânico por sinal.

EiB: Quais as oportunidades de trabalho para estrangeiros no país? Conte-nos sobre sua experiência.
Trabalho do Marcelo durante
 o curso de barista
MT: Conheci muitos brasileiros pela escola. A maioria dos brasileiros que chegam na Austrália pra intercâmbio muitas vezes vão com o inglês básico, o que dificulta na hora de procurar emprego, mas não é impossível. Todo mundo consegue algum job lá. Geralmente os trabalhos que conseguem são na área de Hospitality como Wait Person (Gar
çom/Garçonete) tanto em restaurantes como em eventos (esses ganham bem, tipo AUD50/h por 4 horas de evento); Kitchen Hand (Ajudante de cozinha), esse sofre. E outros como Cleaner (faxieneiro(a)); Walker (distribuidor de panfletos) ; Baby Sitter/Nanny (babá) pras meninas; Labor (Pedreiro) pros meninos. Já pro pessoal que já consegue se comunicar bem em inglês as opções são melhores como: Counter Attendant (Atendente de balcão); Clerk (Atendente de Loja) e Barista (quem prepara bebidas de cafés). Eu também não tive vida fácil pra conseguir arrumar emprego lá, tomei muitos “nãos” de muita gente, de chefes simpáticos a grossos. O pessoal é duro com estrangeiro lá nas entrevistas. Como a rotatividade nesses “sub-empregos” é alta, eles não querem saber onde você estudou e sim se você vai dar conta do recado. Rola bastante preconceito sim, brasileiro tem fama de folgado, festeiro e descomprometido, infelizmente. Eu senti um pouco de preconceito em estabelecimentos asiáticos que só contratam conterrâneos. Outros relatos de amigos que trabalharam como Kitchen Hand disseram que também rolava panelinha de nacionalidades e tratavam mal os brasileiros. Entretanto, na maioria dos casos os chefes não eram Australianos, mas muitos asiáticos. 
Enfim, fiz alguns Trials (Testes práticos) até que por sorte consegui um Trial em uma gelateria italiana, uma das mais conceituadas de Sydney/Austrália, a Gelato Messina. O que me ajudou muito a conseguir esse Trial foi porque eu tinha feito um curso de 1 mês de Barista na própria escola que me deu uma certa experiência no meu Resumé (currículo) e também por já ter trabalhado em sorveteria antes aqui no Brasil. 
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Turma do curso de barista

Eu fui contratado como Counter Attendant e era responsável por servir os clientes. O ambiente de trabalho era o melhor possível, podia tomar sorvete durante o expediente e ainda levar um pouquinho pra casa. Era um sabor melhor que o outro. O Staff do trabalho era sempre muito solícito e animado, trabalhei com australianos, italianos, taiwaneses e uma de Hong-Kong. Minha chefa era Taiwanesa. Pegava geralmente os shifts (turnos) de noite depois da escola e ficava até fechar, quase sempre a sorveteria lotava de gente e era uma loucura atender 3, 4 clientes quase que ao mesmo tempo. Trabalhar lá por 2 meses e meio contribuiu muito para meu inglês, que foi testado na vida real com nativos e não-nativos. O difícil era atender alguns clientes chineses que não falavam nada de inglês, resolvíamos na base da mímica mesmo! [risos] Com o que eu ganhava na sorveteria eu conseguia pagar tranquilamente minhas contas semanais, que lá o aluguel é por semana, assim como as despesas com supermercado e transporte. Percebi que brasileiro vai pra lá com preconceito desses chamados de “sub-empregos”, mas lá na Austrália é como qualquer outro emprego e todos são tratados com muito respeito pelo povo, ninguém tem vergonha de assumir que trabalha lavando pratos, pois apesar de tudo todos eles são remunerados relativamente bem se comparado ao Brasil e dá pra pagar as contas e sobreviver.

EiB: Você gostou das aulas que frequentou em Sydney? Há alguma diferença entre o ensino no Brasil e na Austrália?
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Marcelo com os colegas da SELC
MT: Eu amei a escola onde eu estudei. Estudei numa escola muito conceituada em ensino de inglês para estrangeiros na Austrália, a SELC. Eu estudei por 5 meses no General English e 1 mês fazendo o curso de Barista. No General English eu já cai na turma de Low-Advanced e cheguei até o Advanced no final do curso. Amei a maioria dos meus professores e adorava o staff, sem contar que o ambiente internacional da escola era bem animado. Os colegas de classe (a maioria Brasileiros) foram parceiros e amigos durante toda minha estadia em Sydney. Apesar de sermos maioria, sempre procurávamos conversar em inglês para não deixar nenhum amigo gringo de fora. Eu acredito que não há uma diferença grande no ensino no Brasil e na Austrália. O esquema de aulas são bem similares cobrindo todos as 4 skills [listening, reading, writing  speaking], porém a questão do tempo de aula influencia muito. Enquanto no Brasil normalmente as aulas são de 1h a 1h30 duas vezes por semana, lá fora os cursos são de 4h por dia 5 dias na semana. Tendo mais tempo para se trabalhar com os alunos, também é possível se aprofundar mais detalhadamente em cada matéria. Por exemplo, aqui no Brasil é difícil termos oportunidades para conversarmos em inglês no dia-a-dia, poucas pessoas o fazem, e em sala de aula o tempo pro speaking é curto. Outro exemplo é o Writing, em um curso de inglês no exterior irá aprofundar como escrever cada tipo de texto, as características de cada um e treinar a escrevê-lo propriamente, o que não sobra muito tempo para essa dedicação em sala de aula no Brasil. 
No Brasil, na maioria das escolas de idiomas acredito que é ensinado um inglês mais funcional e burocrático, o que é considerado curso avançado aqui muitas vezes é o equivalente ao intermediário lá fora, talvez mais devido ao tempo de exposição ao idioma do que de conteúdo. Outra diferença é poder contar com um professor nativo que te dá opções de expressões e vários inputs culturais, ao passo que um professor brasileiro vai poder ajudar a ensinar de uma forma muitas vezes mais fácil de se assimilar. Sem contar que em um ambiente internacional, falar ou traduzir para o português muitas vezes não irá adiantar nada, o que estimula o aluno a utilizar o inglês para se comunicar.
EiB: Você já era fluente em inglês antes do intercâmbio. O que mudou na sua habilidade com a língua depois desses 6 meses? 

MT: Não me considerava fluente antes de ir. Eu tinha um inglês que dava pra se virar bem. Acho que em 1 mês vivendo imerso em um país de língua inglesa, como foi o caso em San Diego, dá pra começar a acostumar o ouvido para receber o idioma, mas não sair falando tão bem. Já com 6 meses tendo contato 24h com inglês acredito ter melhorado muito, e foi bem recompensador perceber a melhora que eu tive ao conseguir assistir a filmes sem legenda, acompanhar os programas de tv e conversar com t
odo mundo. Melhorei muito principalmente minha pronúncia em inglês, me sinto bem mais confiante no idioma para conversar. Revisei bastante gramática o que me ajudou a corrigir algumas falhas que tinha e fixar melhor na cabeça; naturalmente meu vocabulário deu uma enriquecida, e minhas writting skills também melhoraram. Sinto ainda que meu ponto fraco é o Listening. Ao ouvir, até consigo distinguir a maior parte das palavras e expressões que são usadas no dia-a-dia, mas me perco legal phrasal verbs ou expressões que nunca ouvi. Tenho dificuldade ainda pra entender uma frase quando é dita rapidamente e/ou com muitas abreviações em uma conversa… Me arrependo um pouco de não ter confiado no meu inglês pra tentar o curso preparatório para o CAE quando tive a oportunidade.

EiB: Compartilhe conosco gírias e expressões que aprendeu durante essa experiência.

MT: A tradicional expressão Australiana sem dúvida é o uso excessivo do “mate” que traduzindo é algo como “cara” ou o “meu” (paulista). Lá eu usava muito o “No worries, mate” (Sem problemas, cara).
O jeito informal de agradecer alguém era bastante comum falar “Cheers, mate”.
E era Aussie ou Oz (se pronuncia Ozzy) pra lá e pra cá também, que é o jeito que os australianos se denominam. 
Como comi bastante em Fast-Food, ouvia as atendentes falar direto “Eat here or take away?” (Comer aqui ou pra viagem). Ou o annoying “Next waiting”.
Não ouvia tanto na rua, mas não fazia menor idéia quando ouvi pela primeira vez… “I reckon…” (Eu acho/penso que), “heaps” (A lot of) e “G’Day, mate” se pronuncia “Gooday” (e era um cumprimento).

EiB: Quais são os 5 pontos turísticos que ninguém deveria deixar de visitar na Austrália?

MT: Com certeza, quem vai pra Sydney não pode deixar de visitar a famosa Sydney Opera House na baía de Sydney que fica junto ao Harbour Bridge (onde acontece a famosa queima de fogos da virada de ano).
  Bondi Beach é a praia mais famosa de Sydney, e fica a 15 minutos de transporte público do centro.
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Bondi Beach
 A região de Blue Mountains, onde há uma reserva florestal na qual é possível fazer trilha e admirar uma linda paisagem como a formação rochosa Three Sisters. E pra quem quer chegar bem perto de cangurus, na região de Morriset é capaz de encontrar centenas de cangurus selvagens andando livremente.
É na Austrália onde fica a maior barreira de corais do mundo na cidade de Cairns, onde é possível fazer mergulho e snorkling. Pra quem gosta de aventura há passeios para o Outback australiano. Alice Springs, que é a região desértica no centro do país, local onde é possível ficar em contato com algumas das espécies animais típicas da Austrália e dos Aborígenes. Em Melbourne, a segunda maior cidade da Austrália, há muita coisa pra se ver pra quem gosta de passeios mais culturais. Há vários museus, teatros e esculturas por todo o centro da cidade. Com o clima frio, dizem que Melbourne lembra muito uma cidade européia, tanto que a moda e a arquitetura é fortemente influenciada. E, por fim, Gold Coast é uma cidade à beira-mar, com o clima bem quente o ano todo. É lá também que se concentram os parques temáticos como o parque da Warner Bros. e Sea World. 
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Marcelo em frente ao Sydney Opera House e Harbor Bridge
Com cangurus em Morisset
EiB: Marcelo, muito obrigada pela entrevista! Eu e os leitores do English in Brazil aprendemos muito com sua experiência!
MT: Foi muito legal compartilhar meu intercâmbio com seus leitores! Obrigado!

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