Entrevista com Angelica Carlet: sobre carreira, Faculdade de Letras e o ensino de inglês em Barcelona

Escrito por Carina Fragozo
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A entrevistada de junho é a gaúcha Angelica Carlet, que tem uma super experiência internacional! Após fazer seu primeiro intercâmbio para os Estados Unidos, com 18 anos, Angelica apaixonou-se pela língua inglesa e pela cultura anglo-saxônica. Quando terminou a Faculdade de Letras na UNISINOS, passou dois anos na Nova Zelândia, onde fez seu primeiro curso de fonética e lecionou inglês para brasileiros. Depois disso, morou dois anos na Escócia e resolveu embarcar de vez no mundo acadêmico na UAB, em Barcelona, onde cursou seu mestrado e atualmente cursa o último ano de doutorado e leciona Fonética e Fonologia do inglês. Nesta entrevista, Angelica conta sobre sua experiência como professora universitária, sobre as dificuldades de pronúncia enfrentadas por falantes espanhóis de inglês como L2, sobre a Faculdade de Letras em Barcelona e sobre o status do professor na Espanha. Adorei conhecer a realidade do ensino de inglês em Barcelona, e gostei muito do processo de seleção para ingressar na universidade, que é bem diferente do nosso vestibular. Espero que gostem da entrevista tanto quanto eu! Boa leitura!

EiB: De onde surgiu o interesse em estudar na Universitat Autònoma de Barcelona (UAB)? 

AC: Sempre tive interesse em estudar no exterior e sendo da área de Letras – Inglês sempre me interessei por viajar, conhecer culturas diferentes e pela aprendizagem de idiomas. Já tendo a nacionalidade européia, resolvi embarcar na aventura acadêmica e me mudei para Barcelona para fazer um mestrado chamado “Intercultural communication and Second language acquisition” na UAB. Achei um grande privilégio poder estudar sobre o tema de comunicação intercultural em uma cidade tão cosmopolita, onde várias culturas convivem diariamente, e também o fato de estudar a aquisição de segundas línguas em uma cidade que é naturalmente bilíngue. Barcelona faz parte da Catalunha e as duas línguas oficiais aqui são o Espanhol e o Catalão. Outra questão que teve muito peso na minha decisão quanto ao curso e a universidade foi o fato de que a UAB é uma universidade extremamente renomada no âmbito nacional espanhol e internacional. Ela ocupa a primeira posição das universidades espanholas e a posição global 177 no ranking internacional “QS”, de acordo com uma pesquisa realizada o ano passado. Gostei muito desta entrevista, espero que vocês também gostem!

EiB: Como surgiu a oportunidade de lecionar na UAB?

AC: Posso dizer que com certeza foi o mestrado que abriu portas para a oportunidade de lecionar na UAB. Assim que terminei o mestrado, surgiu uma vaga anual de “profesora asociada”, o que corresponde ao professor auxiliar no Brasil. Por ter me destacado nas notas durante o curso e também pelo fato de que eu já tinha experiência dando aulas (em cursos de inglês por quase 10 anos), me chamaram para prestar o concurso, que consistia na avaliação do currículo dos candidatos e uma entrevista/prova oral. Desde 2009 estou dando aula de fonética e fonologia do inglês no departamento de filologia inglesa da Faculdade de Letras e agora mesmo estou cursando o último ano do meu doutorado, no qual estou desenvolvendo um projeto de treino fonético que tem como objetivo melhorar a percepção e a produção de sons do inglês para falantes nativos de espanhol/catalão. Amo demais poder ter tido essa oportunidade de lecionar em uma universidade, pois isso é uma grande conquista pessoal e profissional para mim. Sempre sonhei em ser uma professora universitária e a cada dia me apaixono mais pela profissão.

EiB: Qual a diferença entre ensinar fonética e fonologia do inglês para falantes brasileiros e para espanhóis? Eles têm dificuldades semelhantes com a pronúncia da língua? 

AC: Na verdade, eu ainda não ensinei fonética e fonologia para falantes brasileiros, então não posso fazer uma comparação direta quanto as aulas, mas quanto as dificuldades com a pronúncia, posso afirmar que existem algumas semelhanças e algumas diferenças. Sem entrar em termos muito técnicos, vou listar algumas:
– Quanto a dificuldades que são comuns para ambos os falantes espanhóis e brasileiros, posso citar a produção de palavras que comecem com encontros consonânticos, como “special” e “story”. Os brasileiros tendem a incluir uma vogal epentética “i” e os espanhóis incluem a vogal epentética “e”. Outra dificuldade comum para ambas nacionalidades seria a percepção e produção do contraste vocálico “bead”/”bid”, “seat”/”sit”. 
– Os espanhóis/catalães geralmente apresentam muita dificuldade em pronunciar o fonema /V/, ja que esse som não existe nas suas línguas maternas e é pronunciado como /b/. Por isso é muito comum que palavras como “very” sejam pronunciadas como “berry”, ou “vowels” como “bowels”, o que não é problemático para falantes de Portuguê Brasileiro.

– Também existem algumas dificuldades para brasileiros que não são problemáticas para falantes de espanhol/catalão. Por exemplo, o som inicial das palavras “think” e “thanks”. Enquanto existe uma tendência de que falantes brasileiros o substituam erroneamente por /s/ ou /f/, esse fonema existe em espanhol e portanto é produzido corretamente por aqui.

EiB: Quais as semelhanças e diferenças entre a Faculdade de Letras no Brasil e na Espanha?
AC: Dou aula para alunos de segundo ou terceiro ano de faculdade (aqui é um total de 4 anos para se formar em Letras – Inglês e 5 se for combinado com alguma outra língua (eles podem escolher entre várias opções). Acho que as maiores diferenças são o processo seletivo (o nosso vestibular) e o fato de que as aulas aqui são 100% em inglês. Para entrar na universidade pública aqui é preciso atingir a média necessária para cada curso. Essa média é calculada com base em 60% das notas do “bachillerato”, que é equivalente ao nossos dois últimos anos do Ensino Médio, e 40% relativos à “selectividad”, o equivalente ao nosso vestibular. Sempre há vaga para todos que queiram estudar e tenham atingido a média exigida pelas universidades. Existem várias universidades públicas (somente aqui na Catalunha existem 7 públicas, 4 privadas e 1 virtual) e as médias variam de acordo com a qualidade do ensino. Mas a universidade pública aqui não é totalmente grátis e os preços, apesar de serem acessíveis, estão subindo muito por causa da crise. Nos últimos 5 anos, o preço triplicou. Passou de uma media de 600 para 1800 euros anuais. As pessoas que procuram as universidades privadas, geralmente o fazem por não ter atingido a média ou por conveniência da sua localização. Uma diferença que vejo especificamente para o curso de Letras – Inglês é que para entrar na faculdade de Letras, os alunos já deve
m ter no mínimo um nível de proficiência equivalente ao First Certificate, pois as aulas são dadas totalmente em inglês desde o primeiro dia de aula. As aulas são bastante teóricas e específicas.
EiB: Qual o status do professor na Espanha? Você acredita que a classe é mais valorizada do que no Brasil?

AC: Acho que é muito importante comentar que muita coisa mudou e ainda está mudando por causa da crise econômica. Hoje em dia, existe muita exploração e contratos precários devido à escassez de vagas de trabalho em muitas áreas e a docência é com certeza uma delas. Mas, no geral, e principalmente antes da crise econômica, professores sempre tiveram um bom status social aqui na Espanha e, na minha opinião, professores do nível primário e principalmente do secundário são muito mais valorizados tanto socialmente quanto monetariamente do que no Brasil. Para ser professor em escolas secundárias aqui, hoje em dia é necessário fazer um mestrado profissionalizante e prestar um concurso público bastante competitivo. Obviamente essa qualificação é refletida monetariamente. Já quanto a professores de inglês em escolas de idiomas, o status muda um pouco. Essa classe ainda possui um status social razoavelmente alto, mas devido a posição geográfica da Espanha, o mercado de trabalho de escolas de idiomas é dominado por jovens nativos de inglês que decidem viajar por um “gap year”. Acredito que o contato contínuo com falantes nativos seja muito importante e pode ser uma grande vantagem para os aprendizes de inglês, mas também lamento que infelizmente muitos profissionais espanhóis recém formados na Faculdade de Letras tenham dificuldade de encontrar trabalho como professores por não serem nativos do inglês ou tenham que se submeter a situações contratuais e salariais bastante inferiores à sua capacidade. Quanto a docente universitários, acredito que o status social é bastante alto, mas isso é usado como uma estratégia para a desvalorização monetária em comparação com a sobrecarga horária cumprida. Cada vez mais surgem contratos temporais nas universidades e/ou o aumento de número de alunos em aula devido a falta de contratação de novos professores. Acredito que seja um pouco universal o fato de que professores realmente tenham que amar a profissão, pois o retorno financeiro não é um dos pontos fortes da classe. 

EiB: Você pretende voltar para o Brasil? Quais são seus planos para o futuro?

AC: Agora mesmo meu foco é terminar a minha tese doutoral. Depois vou correr atrás das oportunidades, sejam elas onde forem. Com certeza o Brasil faz parte de planos futuros, pois é e sempre será minha terra, mas adoraria continuar na Espanha pelo menos por mais alguns anos, pois me identifico muito com a cultura, com o clima, com o estilo de vida europeu e principalmente porque sou apaixonada pela cidade de Barcelona. Mas seja aonde for que as oportunidades me levem, pretendo continuar no mundo acadêmico e pesquisar na área da fonética e aquisição de línguas. Tenho um interesse pessoal de focar a minha pesquisa na aplicação prática do ensino da pronúncia em sala de aula. Me interesso por teoria, mas é a prática que realmente me fascina. Também vejo um pós doutorado como uma opção futura, pois acredito que para sermos bom professores, o importante e não parar e reciclar-nos a todo momento! Eu vejo tanto o Brasil como a Espanha como ótimos mercados para professores de inglês atualmente, o Brasil pelo crescimento econômico e a Espanha por causa da crise econômica. Ambos países ainda precisam melhorar muito o nível do inglês e acredito que isso seja uma grande oportunidade para profissionais da nossa área. Aqui, a crise econômica impulsionou muito a aprendizagem do inglês no país. A procura por aulas particulares, escolas de idiomas e a o curso de Letras – Inglês duplicou nos últimos anos. Fica a dica! Está nas nossas mãos (profes de inglês), impulsionar a aprendizagem do idioma nesses dois países. E o melhor é que podemos ajudar muitas pessoas fazendo o que a gente gosta. 

EiB: Muito obrigada pela participação, e parabéns pela linda trajetória!

AC: Muito obrigada a você pela oportunidade de participar dessa entrevista e difundir meu trabalho e pesquisa. Sempre acompanho e indico seu blog e as dicas maravilhosas para o ensino e aprendizado do inglês. Parabéns pelo seu ótimo trabalho e por esse blog super astral! 
Angelica realizando uma tarefa de percepção da fala no laboratório de fonética da UAB
Grupo de formandos da UAB, 2014.

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