Black English: tudo sobre o inglês falado pelos negros americanos

Escrito por Carina Fragozo
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Se você já escutou algum rap ou hip-hop em inglês ou prestou atenção na fala dos negros em seriados como Everybody Hates Chris, já deve ter percebido que o dialeto é bem diferente do que estamos acostumados a ouvir no inglês padrão. Para falar sobre o assunto, convidei o Rodrigo P. Honorato (foto), autor do excelente blog English Black Friday e amante da cultura, da música e da línguagem negra americana. O Black English entrou em sua vida através do Rap e do Hip-Hop, pois aprendeu inglês ouvindo 50 Cent, Snoop Dogg, Dr. Dre, Tupac e Eminem. O Rodrigo já teve a oportunidade de morar nos EUA e de visitar o Harlem, bairro de Manhattan conhecido por ser um grande centro cultural dos afro-americanos. Hoje é formado em Letras pela PUC-MG,  professor de inglês há 10 anos e já ofereceu diversas palestras e workshops sobre o dialeto falado pelos negros americanos. E então, prontos para conhecer mais sobre o Black English Vernacular? Enjoy the article!

O QUE É ESSE TAL DE “BLACK ENGLISH”?

O African American Vernacular English (AAVE), também conhecido como “Black English”, é uma junção de algumas linguas do oeste africano como walof e creole com o inglês. Quando os negros africanos foram levados para os Estados Unidos como escravos, o inglês foi imposto pelos “slave masters” ou “senhores de escravos”. Assim, os negros tiveram que aprender, obrigatoriamente, uma outra língua. Como sabemos, aprender uma lingua estrangeira leva tempo e as comparações com a língua materna são inevitáveis. Logo, há algumas diferencas entre o Black English e o Standard English ou Mainstream English (inglês “padrão”) devido à aplicações de “regras” de suas línguas maternas no inglês.

Hoje, encontramos o Black English por todos os lados: seriados, músicas, filmes e comédia stand-up e a cada dia esse dialeto se torna mais comum graças às mídias e à valorização do Rap e do HipHop. Podemos ver grupos pop como Maroon 5 acrescentando um rapper em um de seus sucessos (Wiz Khalifa – Payphone), por exemplo. O dialeto se desenvolveu nos Estados Unidos e até hoje há discussão para definí-lo como um “dialeto” ou apenas “inglês mal falado”. Eu, como linguista e estudioso da lingua inglesa, vejo o African American Vernacular English como um dialeto, ou até mesmo um “ethnolect”, um dialeto de etnia. Apesar de o Black English ter todas as características de um dialeto (gramática própria, vocabulário formal e informal, características fonéticas e construções sintáticas exclusivas), muitos ainda pensam e afirmam que o Black English, também conhecido como Ebonics, não passa de um inglês “errado”.

Também é importante esclarecer que o Black English não é apenas um “inglês com gírias”. Ha gírias em Black English assim como em qualquer outro dialeto da língua inglesa. Penso que há uma relação direta entre o dialeto e as gírias devido à expansão da cultura hip hop e à marginalização das culturas de massa, que historicamente, são produzidas por pessoas pobres e, assim como no Brasil, negras e moradoras de guetos. A relação da cultura hip hop, em si, com a linguagem de rua (Street Talk) é direta e isso faz com que haja uma confusão entre Street Talk (Linguagem de Rua), Slang Terms (Gírias) e Black English (Inglês Negro). Para os que desejarem se aprofundar academicamente no assunto, recomendo a leitura dos artigos escritos pelo renomado sociolinguista William Labov, da Universidade da Pennsylvania.

GRAMÁTICA
1) Uso do “ain’t” para negação 
O uso do “ain’t” tem sido muito comum não somente em Black English, mas em outros dialetos da língua inglesa. Em 1749, quando supostamente a contração foi ouvida pela primeira vez, “ain’t” significava somente “aren’t” ou “are not”. Porém, no decorrer dos anos e séculos, seu significado ficou mais abrangente e hoje é muito usado por qualquer nativo de língua inglesa em diversos países. Há um grupo que acredita que “ain’t” é uma gíria da língua, mas como sabemos, gírias são efêmeras, ou seja, caem em desuso rapidamente e são substituídas por outras. O “ain”t” pode ser usado em vários contextos e apresenta formas e usos com diferentes significados. Porém, sempre ocorre em orações negativas.
ain’t”, “ain’t got not” e “ain’t no” – substitui contrações NEGATIVAS como am not, isn’t, aren’t, don’t have, doesn’t have, there is no, there are no.
Exemplos:

  1. I ain’t gonna tell you on, I ain’t no snitch!
  2. She ain’t your sister, is she?
  3. If you ain’t from the U.S, you ain’t gonna be able to get that passport.
  4. I ain’t got no money, so I had better stay home!
  5. She ain’t got no certification!
  6. Ain’t no water in the swimming pool!
  7. Ain’t no students in the classroom.

2) Dupla ou tripla negação:

A negação dupla ou tripla, que no inglês padrão é considerada equivocada ou errônea, tem uma função muito simples em AAVE: enfatizar a negatividade daquela oração. Nós usamos isso em português também em frases como “Eu não gosto de nada disso!”, “ninguém me disse nada!”, “Eu não vou lá, não!”, ou “Eca! Eu não como nada disso ai não.” Já em inglês, temos alguns exemplos como “aint nobody got time for that”, que se tornou um viral após o video da Ms. Sweet Brown.

3) Os verbos “is” e “are” são omitidos em determinados contextos.
Muito interessante isso! Em alguns casos, o verbo “be” quando conjugado nas formas “is” e “are” é omitido como em “She is my friend”, “They are here with me” e “Where are you at?”. Veja mais exemplos no diálogo:
A: Where y’all at?
B: We at the mall. How about y’all?
A: We ain’t going out tonight. We stayin’ home!
4) -s de terceira pessoa. O -s  d e 3ª pessoa do singular (he, she, it) em orações no Simple Present não é produzido. O verbo auxiliar “does” também é omitido.
She like pizza, Michael. 
He know you?
Why she wanna go?
 5) Present Perfect Continuous: o PPC é usado em situações que começaram no passado e que ainda acontecem no presente, como em “Estou estudando inglês desde 2003” – I have been studying English since 2003. Contudo, em Black English, o “have been” é substituído por “be”. Veja os exemplos:
I be studyin’ English since 2003.
She be workin’ here for quite a while.
6) Present Perfect: Quando esse tempo verbal é usado com o intuito de expressar algo que já foi feito e que já acabou, usamos expressões como “She has already done that” ou “I’ve already done that”. Contudo, em Black English, o verbo auxiliar é omitido e pode-se encontrar as oracoes:
I done done do that!
I been done do that.
She done do it! or She done done do it.
PRONÚNCIA
1) O som do “TH”: No AAVE,  os sons do “th” (vozeado e desvozeado) são produzidos como [d], [v] e [t], [f]:

“TH” vozeado [ð] –> [d] ou [v]

Exemplos:
Brother – bro[d]er ou até mesmo bro[v]er. Esse [v] também é encontrado em alguns dialetos do ingles britânico;
That e this – [d]at e [d]is. Assim, “this” fica com a  mesma pronuncia de “diss”, que faz parte do vocabulário do AAVE e significa “disrespect”: He dissed me, dat’s why I snapped! = He disrespected me, that’s why I got so angry!

“TH” desvozeado [θ] –> [t] ou [f]

Exemplos:
Thanks – [t]anks.  Pronúncia também muito comum no dialeto jamaicano (Jamaican Patois ou Patwa).
Nothing – nuttin’ ou nuffin’). A pronúncia de [f] no lugar de [θ] também é encontrada no dialeto Cockney, falado em Londres pela classe trabalhadora.
2) O som do “r”: O [r] no final de palavras não é pronunciado. Isso tambem acontece no inglês britânico mas, em Black English, ele é produzido com a vogal schwa.
Exemplos:
Water Wata ou watah
He is a gangster – He a gangsta
3) Palavras terminadas em “ore” e “or”: são pronunciadas com som de[ou].
Exemplos:
Please, open the door – Please, open da do’ 
I don’t want to talk to you anymore – I don’t wanna tawk to you no mo’
VOCABULÁRIO

  1. “Bad” : significa “really beautiful or hot”. Ex: Jeniffer Lopez bad, huh!
  2. “Frontin”: significa fingir ser rico ou bem sucedido, ou seja, “ostentar o que não tem”. Ex: Nah, ya believe that dude right there? He frontin’.
  3. “Flossin”: significa “show off” ou “ficar se aparecendo”. Porém, diferentemente de “frontin’”, desta vez a pessoa se exibe com o que ela tem. Ex: I don’t really like those rappers, ya know, all they do is floss.
  4. “Lame”: significa “ not cool” ou “stupid”. Usa-se essa palavra quando algo não tem nada de “cool”. Exemplo: Are you serious? Ya gon’ wear a suit at the beach? For real, you lame!
  5. “Real”: significa “autêntico”, “original” ou “confiável”. Ex: I think y’all should go steady, she real!
  6. “What it do?” or “What it is?”: Significa “What’s up?” – Usa-se para cumprimentar alguém, como em “E aí, que que tá pegando?”. Logo, não responda “I’m fine!”. “What’s up?” não significa “How are you?”. Geralmente respondemos com “Nothing much” ou em Black English “Nuttin’ much, bruh!”

PARA PRATICAR:

Se quiser ver exemplos do dialeto em prática, assista às entrevistas a seguir, que ficaram muito famosas na internet por suas versões remixadas. Todos os videos abaixo apresentam primeiramente a entrevista original e, em seguida, a versão remixada. Have fun!

Bed Intruder

Sweet Brown (Ain’t nobody got time for that)

Dead Giveaway – Charles Ramsey

MÚSICAS, FILMES E SERIADOS:
Musicas: Todo e qualquer RAP ou HIP HOP americano (Recomendo Ludacris e Dr. Dre, meus favoritos)
Filmes: Vários, mas recomendo Coach Carter, Freedom Writers, Friday, Boys in The Hood  e Bad Boys 1 e 2
Seriados: Todo Mundo Odeia o Cris e House of Payne são meus favoritos
Desenho: Você tem que assistir ao The Boondocks, polêmico e “cheio” de Black English!

SAIBA MAIS:
Você pode encontrar mais informações nos vídeos a seguir, que ensinam o AAVE de maneira divertida:

Philochko

Funny Philochkina

 

E então, gostou do post? Então não esqueça de deixar o seu comentário e de compartilhar o excelente artigo escrito pelo Rodrigo! Ah, e não esqueça de visitar o blog English Black Friday. Se quiser entrar em contato com o Rodrigo, siga-o no instagram: @dawghoustonTake care!

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